Introdução

Nas últimas décadas, poucos conceitos têm merecido tanto destaque como a resiliência, isto é, a capacidade de um sistema ou de um indivíduo lidar com a mudança e simultaneamente continuar a desenvolver-se. Os investigadores têm procurado explicar como a resiliência em diferentes sistemas é reforçada ou comprometida, quer se trate de um indivíduo, de uma floresta ou de uma economia. Contudo, a compreensão dos fatores determinantes para fortalecer a resiliência é todavia insuficiente para poder ser aplicada na prática.

Applying resilience

A aplicação prática do conceito de resiliência exige um conhecimento de como desenvolver capacidades para lidar com mudanças bruscas. Esta abordagem requer o reconhecimento de que os seres humanos são uma parte integrante e interagem com a biosfera – a camada de ar, água e terra que constitui o planeta e na qual existe a vida. Dependemos e interagimos com a biosfera por meio da utilização de serviços ecossistémicos, como a água que bebemos ou utilizamos para cozinhar, as culturas que cultivamos para nos alimentarmos, a regulação do clima e as nossas ligações espirituais ou culturais com os ecossistemas. O Homem altera também a biosfera de inúmeras formas através de atividades como a agricultura e a construção de estradas e cidades.

As abordagens no quadro teórico-metodológico da resiliência analisam como os sistemas socioecológicos, nos quais as pessoas e a natureza interagem, podem ser geridos da melhor forma para assegurar o fornecimento sustentável e resiliente dos serviços ecossistémicos essenciais dos quais dependemos. A presente publicação é um resumo do livro Principles for Building Resilience: Sustaining Ecosystem Services in Social-Ecological Systems publicado pela editora Cambridge University Press em 2015. Examina e avalia os diferentes fatores sociais e ecológicos que têm sido sugeridos como promotores da resiliência dos sistemas socioecológicos, apresenta sumariamente sete princípios suscetíveis de reforçar a resiliência e discute como esses princípios podem ser aplicados na prática. Os sete princípios são: 1) Preservar a diversidade e a redundância 2) Gerir a conectividade 3) Gerir variáveis lentas e mecanismos de retroação 4) Promover a compreensão sobre sistemas complexos adaptativos 5) Encorajar a aprendizagem 6) Alargar a participação 7) Promover sistemas de governança policêntricos.

Nas páginas que se seguem, cada princípio é apresentado juntamente com um exemplo prático da sua aplicação. Naturalmente, não existe uma solução universal para fortalecer a resiliência. Todos os princípios aqui apresentados requerem uma abordagem prudente no sentido de avaliar quando, onde e como devem ser aplicados e como os diferentes princípios interagem e dependem uns dos outros. Por conseguinte, antes da aplicação de qualquer um dos princípios é importante ponderar onde se pretende reforçar a resiliência e para que fins (e.g. incêndios, inundações, mudanças em curso como a urbanização). Um outro aspeto importante tem a ver com a possibilidade do reforço da resiliência dos serviços ecossistémicos numa área, aumentar as desigualdades existentes, por exemplo, quando uma área carenciada se vê a braços com inundações causadas por atividades agrícolas ou florestais em terrenos privados a montante. É necessário encontrar um compromisso entre diferentes serviços ecossistémicos (e.g. produção de culturas e biodiversidade) e compreender que não é possível fortalecer a resiliência de todos os serviços ecossistémicos simultaneamente. Tendo presente esta reserva, os sete princípios oferecem uma orientação acerca das possibilidades de intervenção e “colaboração” com os sistemas socioecológicos para salvaguardar a resiliência dos sistemas e assegurar que produzem os serviços necessários para manter e apoiar o bem-estar das pessoas num mundo em rápida evolução e cada vez mais sobrelotado.